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O mar e as mensagens

Uma caminhada noturna pela baía de Acapulco depois de uma conferência sobre telecomunicações se transforma em uma reflexão sobre Hemingway, os velhos portos e a necessidade humana de enviar ideias para além do tempo e da distância.

O mar e as mensagens

Vim a Acapulco a trabalho. Durante todo o dia ouvi conversas sobre telecomunicações, mensageria e novos canais de comunicação. As perguntas eram as de sempre: como chegar mais longe, como entregar mais rápido, como capturar a atenção de usuários cada vez mais saturados de informação. Ao terminar a conferência decidi caminhar um pouco pela praia antes de voltar ao hotel. A areia ainda guardava algo do calor do dia. O vento trazia o cheiro do mar e, por um momento, o ruído das apresentações, das telas e das conversas de negócios começou a desaparecer. Restaram apenas as ondas avançando e recuando sobre a costa com uma paciência impossível.

Há algo no mar que nos obriga a pensar mais devagar.

Hemingway diante do mar

Talvez por isso eu tenha terminado lembrando de Hemingway. Sempre admirei sua capacidade de encontrar profundidade sem recorrer à complexidade. Enquanto outros escritores pareciam empenhados em demonstrar o quanto sabiam, ele dedicou boa parte da vida a eliminar o desnecessário até restar algo mais próximo da verdade. Foi romancista, correspondente, observador incansável da condição humana. No fundo, foi um homem dedicado à comunicação.

E enquanto caminhava pela baía não conseguia deixar de imaginá-lo diante de outro mar, décadas atrás, perseguindo exatamente a mesma pergunta que ainda nos persegue hoje: como transmitir algo importante a outra pessoa.

O porto que sempre foi uma mensagem

A conferência de onde eu vinha falava sobre o futuro da comunicação. No entanto, Acapulco parecia contar uma história diferente. Antes dos telefones, antes da internet e muito antes dos data centers, este porto já existia para conectar mundos distantes. Por estas águas viajaram mercadorias, notícias, cartas, histórias e sonhos. Cada navio que aparecia no horizonte era, de certo modo, uma mensagem.

Talvez por isso a imagem de uma garrafa lançada ao mar continue sendo tão poderosa. Porque representa algo profundamente humano. A esperança de que nossas palavras possam atravessar a distância e encontrar alguém do outro lado.

Pensando bem, toda a nossa história poderia ser descrita assim. Uma sucessão interminável de mensagens. Algumas escritas sobre pedra. Outras transportadas por navios. Outras impressas em papel. Outras convertidas em impulsos elétricos viajando através de cabos submarinos. A tecnologia muda, mas a necessidade permanece.

Precisamos compartilhar ideias porque nenhuma pessoa pode descobrir o mundo sozinha. Vivemos sobre conhecimento herdado. Habitamos cidades projetadas por pessoas que nunca conheceremos. Utilizamos ferramentas criadas por gerações anteriores. Compreendemos o universo graças a observações acumuladas ao longo de séculos. Tudo isso existe porque alguém encontrou uma maneira de transmitir uma ideia para além da própria vida.